Se tem uma cidade cheia de atrações interessantes, esta
cidade é Barcelona. Com belezas
naturais e construídas por grandes arquitetos, visitar a capital da Catalunha é sempre um grande prazer e
descobertas a cada esquina. Dentre as visitas imperdíveis está o belo Park Güell, que não deve ficar fora da
sua lista. São tantos lugares bacanas para se visitar que para quem vai à
cidade, é necessário fazer certo planejamento prévio. Pois para conseguir ver o
que se quer e não ficar horas esperando precisa de um pouco de organização. Sim, a cidade é sempre cheia e não existe mais aquela
história de “baixa temporada”. Para aqueles que não querem deixar de conhecer
tudo que tem vontade, a palavra-chave é planejamento. Uma das atrações mais visitadas de Barcelona, e não sem merecimento, é o Park Güell, uma das grandes
obras de Gaudí. E para visitar o lugar, é necessário um pouco de planejamento, já que o Parque
fica afastado do centro. Outro grande motivo é para não chegar lá e
ficar horas esperando para entrar, ou ainda não encontrar mais entradas
disponíveis para o dia.
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Entrada do Park Güell na Carrer D'Olot |
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Museu de História de Barcelona
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O Park Güell, com
15 hectares de vegetação, é um grande parque urbano com elementos
arquitetônicos situado no Distrito de
Gràcia, numa região alta da cidade de Barcelona,
na vertente virada para o Mar Mediterrâneo
do Monte Carmelo (Montanha Pelada), não muito longe do Tibidabo. Originalmente destinado a ser
uma urbanização, foi concebido pelo arquiteto Antoni Gaudí, expoente máximo do
modernismo catalão, por encomenda do empresário Eusebi Güell (Conde de Güell). Construído entre 1900
e 1914, revelou-se um fracasso comercial e foi vendido ao Município de Barcelona em 1922, tendo sido
inaugurado como parque público em 1926. Em 1969 foi nomeado Monumento Histórico Artístico de Espanha,
e em 1984 foi classificado pela UNESCO
como Patrimônio da Humanidade,
incluído no sítio Obras de Antoni Gaudí.
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Torre da Casa das Crianças |
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Casa das Crianças |
O Parque está implantado num terreno devoniano formado por
estratos de ardósia e calcário. Quando Güell comprou o terreno, este estava
praticamente desflorestado – como indicava o seu nome, Montanha Pelada – à exceção de um ou dois pinheiros, um par de
alfarrobeiras e arbustos baixos. Gaudí mandou plantar nova vegetação,
escolhendo, sobretudo espécies mediterrâneas autóctones, as que melhor se
adaptavam ao terreno: pinheiro, alfarrobeira, azinheira, eucalipto, palmeira,
cipreste, figueira, amendoeira, ameixeira, mimosa, magnólia, agave, lentisco,
hera, maqui, carrasco, retama, cisto, lavanda, salva, entre outras. De forma a
minimizar a intrusão das estradas, vencendo o declive da montanha sem recorrer
a grandes escavações, Gaudí desenhou-as como estruturas salientes da encosta,
suportadas por pórticos, muros de suporte e viadutos concebidos usando pedra
rústica extraída do local. Algumas das estradas são ainda ladeadas por colunas,
muretes e outros elementos arquitetônicos, igualmente concebidos com pedra
rústica, de forma a integrá-las perfeitamente na paisagem.
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L’escalinata Del Drac |
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L’escalinata Del Drac |
O Parque foi concebido por Güell e Gaudí como um conjunto
estruturado onde, dentro de um incomparável quadro de beleza natural, se
situariam 40 habitações de luxo, com todos os progressos tecnológicos da época
e acabamentos de grande qualidade artística. O projeto pretendia criar uma
espécie de cidade-jardim em estilo inglês, fato que justifica a grafia de Park
com “k”, como parque em inglês. Em 1900, Gaudí começou a trabalhar no projeto de
criação dessa cidade-jardim numa porção de mata localizada na parte alta de Barcelona. Quando o projeto de
construção dessa pequena cidade foi abandonado em 1914, apenas duas casas
tinham sido construídas, além de áreas comuns. Não se sabe ao certo o que Güell
e Gaudí pretendiam alcançar, visto que não restam registros a esse respeito,
mas parece óbvio que o Parque se destinava a um grupo seleto e não ao público
em geral, e que está recheado de referências a ideias, fantasias e ideais que
eram importantes para ambos, como o catalanismo político e a religião católica,
em todo caso com certo caráter misterioso devido ao gosto da época por enigmas
e adivinhas.
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El Drac |
O Park Güell é um
reflexo da plenitude artística de Gaudí; pertence à sua etapa naturalista
(década de 1900), período no qual o arquiteto catalão aperfeiçoou o seu estilo
pessoal, inspirando-se nas formas orgânicas da natureza e pondo em prática uma
série de novas soluções estruturais originadas na sua análise da geometria
regrada. A isso acrescentou uma grande liberdade criativa e uma imaginativa
criação ornamental; partindo de certo barroquismo, as suas obras adquirem
grande riqueza estrutural, de formas e volumes desprovidos de rigidez
racionalista ou de qualquer premissa clássica. No entanto, embora contenha
vários elementos característicos da fase final da carreira de Gaudí, como a
preferência por colunas inclinadas e o uso de trencadís, o Parque apresenta uma
mistura de elementos de diferentes estilos (românico, barroco, dórico,
pré-romano etc.) que remete para as suas primeiras obras. Uma das
características mais marcantes do Park
Güell é o contraste entre as texturas e cores dos diferentes materiais de
construção (cerâmica brilhante e multicolorida versus pedra rústica castanha),
tão apreciado pelos arquitetos do modernismo catalão.
Gaudí situou a entrada
principal na parte mais baixa da montanha (Carrer
d’Olot), a mais próxima do núcleo urbano. Como acesso concebeu uma entrada
monumental com um par de gazelas mecânicas em tamanho real, que nunca chegou a
ser construída. No seu lugar foi colocado um simples portão em madeira, que foi
substituído em 1965 por um portão em ferro forjado representando folhas de
palmito transladado da Casa Vicens,
uma das primeiras obras de Gaudí. De ambos os lados do portão de entrada
situam-se dois pavilhões destinados aos serviços do Parque. Estes estão
integrados na muralha exterior do Parque, que deveria envolver todo o recinto,
mas que apenas foi parcialmente construída, constituída por um muro de tijolo
revestido com pedra rústica extraída do local e rematado no topo com peças de
cerâmica branca e vermelha onde se destacam medalhões com inscrições “Park” e
“Güell”.
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Colunata da Sala Hipostila |
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Pórtico da Lavadeira |
Os pavilhões da entrada são
do mais puro estilo gaudíniano, com uma estrutura orgânica reflexo do profundo
estudo que Gaudí fazia da natureza. Realizados com alvenaria de pedra rústica
extraída do local, destacam-se pelas abóbadas em forma de paraboloide
hiperbólico cobertas com cerâmica de cores vivas e rematadas com chaminés de
ventilação em forma de cogumelo, nas quais Gaudí utilizou a técnica da abóbada
catalã, que consiste na sobreposição de várias camadas de tijolos com argamassa.
Os pavilhões ao redor da entrada estão inspirados no conto de
“Hansel e Gretel”, e foram construídos para abrigar a portaria, administração e
setor de manutenção da cidade-jardim. O pavilhão da esquerda seria a casa das
crianças, Hansel e Gretel. Hoje está ocupado por uma livraria e lojinha de
lembranças. A casa da direita, coroada por uma decoração que lembra um cogumelo
venenoso, seria a casa da bruxa.
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Pórtico da Lavadeira |
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Vista da Gran Plaça Circular e da Sala Hipostila |
O pavilhão maior, atualmente
parte do Museu de História de Barcelona,
tem um aspecto mais convencional e destinava-se ao porteiro, que morava neste
edifício com a sua família. Possui um vestíbulo, uma sala de jantar, uma sala
de estar e uma cozinha ao nível do rés do chão, quatro quartos ao nível do
primeiro piso e um sótão com dois terraços ameados e uma escada em espiral que
dá acesso a uma varanda localizada em torno da chaminé de ventilação. O aspecto
do pavilhão menor é marcado por uma grande janela com portadas de ferro forjado
que faz lembrar o olho de um inseto e por uma torre helicoidal com 30 metros de
altura revestida com cerâmica branca e azul formando um padrão xadrez. Possui
uma grande sala de recepção equipada com um telefone ao nível do rés do chão,
onde os residentes podiam vir receber as suas visitas, e mais salas ao nível do
primeiro piso, com acesso a dois terraços ameados e a uma escada exterior que
dá acesso a um mirante localizado na base da torre. A torre é coroada por uma
estrutura aberta em ferro forjado e uma cruz de quatro braços alinhada com os
quatro pontos cardeais. A cruz original foi destruída em 1936 durante a Guerra Civil Espanhola e posteriormente
substituída por uma cópia não muito fiel da original, e a torre teve que ser
reforçada com barras metálicas em 1952 para evitar o agravamento da fissuração
que vinha ocorrendo.
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Gran Plaça Circular ou Praça Oval |
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Viaduto do Algorrobo |
Do vestíbulo da entrada principal parte uma Escadaria
Monumental, nomeada de L’escalinata
Del Drac, de duplo tramo com três lances de escadas e
revestida com trencadís que conduz à Sala
Hipostila. A escadaria está implantada entre muros ameados, cujas paredes
estão revestidas com pedaços de cerâmica multicolorida formando uma espécie de
padrão em xadrez com retângulos brancos e quadrados coloridos, em cujas
superfícies alternadamente convexas e côncavas a luz do sol cria um efeito
visual notável. Na sua zona central alberga três fontes com conjuntos
escultóricos igualmente revestidos com trencadís. Na primeira fonte são
discerníveis, ainda que de forma um pouco crítica, um círculo, um esquadro e um
compasso. A segunda fonte contém a cabeça triangular de um réptil sobre o
escudo da Catalunha inscrito num
hexágono, rodeados de flores de eucalipto. A terceira fonte tem a forma de um
réptil multicolorido conhecido como El
Drac, que se converteu no emblema do Parque e num dos símbolos da cidade de
Barcelona. No último patamar da
escadaria, por baixo da coluna central da Sala
Hipostila, existe um local de repouso na forma de um pequeno recesso, cuja
borda está decorada com um padrão reminiscente dos mosaicos usados por Gaudí no
exterior da Casa Vicens: flores cor
de laranja num fundo verde. O banco que coroa a escada tem forma de odeão
(pequeno anfiteatro grego) e conta com a particularidade de permitir que se
tome sol no inverno e dê sombra no verão. Esta é, sem dúvida, a parte mais conhecida do Parque e a
que mais atrai turistas.
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Muro de contenção do lado norte da Praça Oval
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No topo da escadaria situa-se a Sala Hipostila ou Sala das
Cem Colunas, uma espécie de grande alpendre originalmente destinado a
albergar um mercado ao ar livre para a urbanização. A sala contém 86 colunas
dóricas com cerca de seis metros de altura, construídas com entulho e argamassa
imitando mármore e revestidas com trencadís branco liso até uma altura de 1,8
metros, uma adaptação prática tendo em conta o uso previsto para o espaço, mas
que está deslocada neste tipo de coluna. No topo das colunas exteriores existe
ainda um friso com gárgulas em forma de cabeça de leão, bem como pequenos
relevos em forma de gota de água sobre o ábaco. Entre a floresta de colunas
igualmente espaçadas, Gaudí criou três espaços maiores suprimindo algumas
colunas, possivelmente com o objetivo de organizar as bancas dos vendedores que
periodicamente vinham vender ali os seus produtos. Nos espaços vagos deixados
pelas colunas suprimidas encontram-se quatro grandes rosetas coloridas com
quase três metros de diâmetro representando o sol durante as quatro estações do
ano, rodeadas por 14 menores com desenhos de redemoinhos e espirais,
representando estrelas ou luas.
A zona central do Parque é
constituída por uma imensa praça aberta de forma oval parcialmente suspensa,
delimitada do lado da metade sul por um Banco
Ondulante com cerca de 150 metros de comprimento e revestido com trencadís,
enquanto a outra metade está ausente na encosta da montanha. O Banco possui vista panorâmica sobre a cidade e as suas
curvas formam vários recessos, permitindo às pessoas neles sentadas conversar
em relativa privacidade apesar da dimensão da Praça. O assento está revestido
com trencadís branco e é inclinado de forma a conduzir a água da chuva para a
parte de trás do assento, onde se situam aberturas que escoam a água para o
exterior, mas as costas do assento e a parte exterior do banco são revestidas
com trencadís coloridos. A Gran Plaça Circular,
também conhecida como Teatro Grego,
sobre a Sala Hipostila não se
encontra pavimentada, pois a água das chuvas que recolhe é drenada e canalizada
por tubos existentes no interior das colunas para uma cisterna existente por
debaixo da Sala Hipostila, para ser
usada na rega do Parque. De forma a filtrar a água, Gaudí preencheu o espaço
entre as abóbadas com várias camadas de pedras de diâmetro cada vez menor,
utilizando gravilha fina na última camada, que serve de pavimento à Praça.

Diversas estruturas do Parque,
incluindo as abóbadas dos pavilhões da entrada, o teto da Sala Hipostila e o Banco Ondulante,
são compostas por elementos pré-fabricados e posteriormente inovadores para a
época. Igualmente inovador é o fato do Banco
Ondulante e de muitas das superfícies da Sala Hipostila, da escadaria e dos pavilhões da entrada estarem
cobertas por pedaços de cerâmica e vidro formando uma espécie de mosaico
colorido, típico do modernismo catalão, conhecido como trencadís. O uso dos
azulejos partidos é uma técnica decorativa da Catalunha, que Gaudí decidiu usar em resposta aos anúncios
publicitários da época, feitos com azulejos. Diz-se que por indicação de Gaudí
os trabalhadores tinham por hábito recolher os pedaços de cerâmica e vidro que
encontrassem no lixo a caminho da obra, e tornou-se costume dos barceloneses
empilhar junto ao Parque a cerâmica, louça e porcelana que se partia para ser
reciclada na construção. Ainda assim, os registros do Parque indicam que foram
trazidas grandes quantidades de mosaico de Valência,
e uma revista da época comentou que não era todos os dias que se viam 30 homens
a partir azulejos em pedaços e outros 30 a voltar a juntá-los.
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