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Catacumbas de Paris |
Paris é conhecida como La Ville Lumière: um lugar
cheio de beleza e charme que atrai multidões do mundo inteiro. Cenário de
cartões-postais mundialmente conhecidos, como o Arco do Triunfo, o Museu do
Louvre, a Torre Eiffel, a Avenida Champs-Elysées, a Catedral de Notre-Dame, entre outros. Paris é uma das cidades mais desejadas
do mundo. Todo esse glamour, no entanto, esconde abaixo desta bela cidade uma
escura colmeia de túneis que guardam os restos mortais de seis
milhões de seus antigos habitantes. Estas são as Catacumbas de Paris: uma rede de cavernas antigas, pedreiras e
túneis que se estendem a centenas de milhas, e aparentemente alinhada com os
ossos dos mortos. É considerado o maior ossuário do planeta. Para chegar até os
túneis cheios de ossos é necessário descer 130 degraus em espiral, a 20 metros
por debaixo da terra. A parte oficial tem uma extensão de aproximadamente dois
quilômetros e estão abaixo das ruas de Denfert-Rochereau.
Todo o percurso leva cerca de 45 minutos para ser realizado. A temperatura
média é de 12º C. Se você é claustrofóbico, esqueça!! “Pare! Este é o Império da Morte”. É isso que você lê quando se
aproxima de uma das principais entradas das Catacumbas de Paris, ponto turístico tradicional da cidade.
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Catacumbas de Paris |
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Crânios organizados em forma de coração |
As Catacumbas
de Paris têm suas origens nas pedreiras de calcário situadas nos arredores
da cidade. Este recurso natural tem sido usado desde o tempo dos romanos, e
forneceu material de construção de edifícios da cidade, assim como contribuiu
para o seu crescimento e expansão. Este
sistema de túneis é oficialmente designado "Les Carrières de Paris" (As Pedreiras de Paris ou Subterrâneos
de Paris) e, embora o ossuário
ocupe apenas uma parte dos túneis, todo o sistema chega a 400 quilômetros de
extensão. Foi só depois da segunda metade do século
XVIII, no entanto, que as antigas minas de calcário (agora sob a cidade como
ela se expandiu ao longo dos séculos) foram transformadas em locais de
sepultamento. Por volta do século XVIII, cemitérios parisienses, como Cimetière “des Saints-Innocents” (o
maior cemitério de Paris), foram
tornando-se superpovoados, dando origem a enterros impróprios, sepulturas
abertas e cadáveres jogados ao ar livre. Muito naturalmente as pessoas que
viviam próximo desses lugares começaram a reclamar sobre o forte cheiro de
carne em decomposição, além da propagação de doenças ao redor
dos cemitérios, fazendo com que a água dos reservatórios locais fosse
contaminada. O resultado era claro: mais pessoas doentes e, consequentemente,
mais mortes.
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Corredores das Catacumbas |
Em 1763, um decreto foi emitido por Louis XV proibindo todos
os enterros na capital. Na metade do século XVIII, a maior parte das
igrejas de Paris possuía seu
cemitério. A Igreja, porém, não quis mover os
cemitérios, então se opuseram à sentença. Como resultado nada foi feito. Em 1785, o Conselho de Estado francês decidiu pela necessidade de
reformular o sistema de cemitérios de Paris
e pela imediata tomada de providências. Novos cemitérios foram construídos na
periferia da cidade, mas restava a preocupação do que fazer com os cemitérios
superlotados já existentes. A ideia de usar os túneis abandonados das pedreiras
parisienses é creditada ao Chefe de Polícia.
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Crânios |
Em 1786 as antigas Pedreiras Tombe-Issoire foram abençoadas e consagradas pela
igreja, transformando-se então nas Catacumbas
de Paris. Sob orientação do Inspetor Geral dos Túneis de Paris,
as primeiras ossadas transferidas saíram do Cemitério Saint-Nicolas-des-Champs. Elas
foram transferidas à noite numa espécie de cerimônia feita de uma
procissão de sacerdotes que cantava ao longo do caminho para as Catacumbas. Nas décadas seguintes os
ossos dos mortos foram removidos dos cemitérios nos arredores de Paris para também serem enterrados nas Catacumbas. Além disso, a prática de
enterrar os mortos recentes diretamente nas Catacumbas começou após a Revolução
Francesa.
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Decoração com crânios |
Inicialmente, as ossadas foram jogadas
de qualquer modo nas catacumbas. Somente na
época do Império francês (a partir de 1810), que, as ossadas foram dispostas
nos corredores das Catacumbas com
certa criatividade artística. Ossos longos, como Fêmur e Tíbia, foram colocados à frente,
formando verdadeiras paredes de ossos, adornados com os crânios em desenhos
geométricos. Por trás destas paredes de ossos, foram depositados os ossos
menores e mais irregulares. Desde o primeiro dia da transferência dos
cemitérios, as Catacumbas de Paris
tem sido um objeto de curiosidade até mesmo para a realeza. Em 1787 Lord of
d’Artois, que se tornou Rei Charles X, foi até lá com algumas mulheres da
corte. Em 1814 François I, o Imperador da Áustria,
foi visitá-las e explorá-las enquanto estava em Paris. Em 1860 Napoleão III foi lá com seu filho. As paredes das Catacumbas também estão cobertas de
pichações de namoro desde o século XVIII. Muitos, infelizmente já
deixaram a sua marca neste lugar. Perto do final do século XVIII as Catacumbas tornaram-se uma atração
turística e foram abertas ao público desde o ano de 1867.
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Paredes de crânios nos corredores |
Durante a Segunda Guerra Mundial, membros da Resistência
Francesa utilizaram
assiduamente os túneis de Paris. Os
alemães também se serviram dos túneis, chegando a construir bunkers e casamatas nas suas galerias. Na segunda metade
do século XX, como sempre, os subterrâneos de Paris foram usados por grupos das mais diversas ideologias. Grupos
de ativistas políticos, religiosos, artistas, aventureiros, usuários de drogas,
e vários outros se serviram dos subterrâneos para seus propósitos, o que ocorre
ainda hoje.
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Decoração com crânios e fêmur |
Os subterrâneos de Paris também foram utilizados para passagens de cabos telefônicos,
de TV por assinatura e acesso à Internet. Entretanto, devido a inúmeros casos
de vandalismo e dificuldades de acesso, tais cabos foram transferidos para
tubulação específica mais superficial e protegida. A parte dos subterrâneos
ocupada pelo ossuário continua reservada e é aquela à qual os turistas têm
acesso com total segurança. Com a especulação imobiliária e necessidade de
reforço do subsolo para segurança das edificações, uma média de cinco
quilômetros da rede de túneis existente tem sido bloqueada anualmente por
estruturas de cimento.
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Lápide indicando de qual cemitério foram retirados esses ossos |
As Catacumbas são
uma parte bem sinistra de Paris.
Elas são tranquilas, escuras, úmidas e transmitem certo ar de melancolia. Você nunca
vai saber quem é quem, se o crânio que você está olhando pode ser alguém que
morreu de peste ou de um rico aristocrata. Nunca se sabe. Embora as Catacumbas de Paris estejam abertas ao público
em geral nos dias de hoje, o acesso é limitado a apenas uma pequena parte dos túneis.
Aliás, desde 1955 é ilegal tentar acessar as outras partes das Catacumbas. No entanto, em 2004 a
polícia parisiense foi designada para fazer um exercício de treinamento em uma
parte previamente inexplorada das Catacumbas
de Paris, embaixo do Palais de
Chaillot, próximo à Torre Eiffel.
Entrando nas Catacumbas através de
um dreno os policiais se depararam com um cartaz que dizia “Local em construção, sem acesso”, além
de uma câmera que transmitia imagens daqueles que passavam por ali.
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Ossos e mais ossos |
Quando os policiais pegaram a câmera
uma gravação de cães latindo foi acionada. Ao seguir pelos túneis mais uma
surpresa: as Catacumbas foram
invadidas ilegalmente por exploradores urbanos parisienses, conhecidos como “cataphiles”. Alguns dos espaços sequer foram
restaurados e mesmo assim se tornaram em locais de grande criatividade. Uma
destas cavernas subterrâneas, por exemplo, foi transformada em um anfiteatro
secreto, portando uma tela de cinema gigante, equipamentos de projeção,
assentos e um punhado de filmes, desde clássicos a filmes mais recentes. A
área ao lado do “cinema” também foi modificada, transformando-se em um bar
totalmente abastecido e em um restaurante. Este seria, talvez, onde os
frequentadores desse submundo secreto faziam um lanche e tomavam uns drinques
entre uma sessão e outra.
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Mais crânios |
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Entrando nas Catacumbas de Paris |
A
descoberta deixou a polícia surpresa ao encontrar todos esses aparatos, uma instalação profissional
de linhas de eletricidade e mais três de telefone. E, ao
voltarem três dias depois, na companhia de peritos do Conselho Francês de Energia Elétrica para tentar descobrir de onde
a energia estava vindo, os cabos tinham sido cortados e um papel havia
sido deixado no chão. “Não
tentem nos encontrar”, dizia o bilhete. Estima-se que mais de 300 “cataphiles”
entram nas Catacumbas a cada semana através de entradas secretas. Os que não são “cataphiles” e turistas, no entanto, muitas vezes
não são bem-vindos a essas reuniões. Essa é uma
história real e pode ser encontrada em diversos jornais e sites de notícias,
embora um ou outro aspecto varie de acordo com a fonte consultada. Há quem diga
que a descoberta foi por acaso, durante uma operação de rotina do esquadrão de
Polícia especializado em patrulhar o Subterrâneo
de Paris. Por outro lado, os
donos do cinema garantem que a descoberta só foi possível porque um ex-membro
do grupo deu com a língua nos dentes.
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Interior das Catacumbas de Paris
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Organização dos ossos |
Desde o seu início, como uma pedreira de
calcário, para a sua utilização no enterro dos mortos no século XVIII, e ao
papel que desempenha hoje na vida dos “cataphiles” e no turismo, as Catacumbas de Paris se tornaram uma característica importante
da “Cidade Luz”, mesmo que ainda
tenham alcançado tamanha fama dos demais pontos turísticos. Mas não é qualquer
um que se dispõe a entrar em cavernas com ossadas por todos os lados. Embora a exploração sistemática dos túneis
subterrâneos possa trazer luz aos demais caminhos das Catacumbas, isso seria bastante criticado pela maioria da
sociedade. Afinal de contas, o segredo dos túneis das Catacumbas e a oportunidade
de fugir da agitação da cidade movimentada que fica logo em cima, são
conceitos atraentes para os “cataphiles”. E eles
provavelmente não iriam abrir mão de seu submundo tão facilmente. Você pode
chegar às Catacumbas de metrô ou
ônibus. Abre todos os dias, com exceção de segunda-feira e paga-se para entrar.
Apesar de ser um local inusitado, as Catacumbas
estão cada vez mais conhecidas. A fila para entrar pode ter uma espera de até
duas horas, dependendo do horário e da época. As visitas são limitadas a 200
pessoas no local.
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