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Ponte Hercílio Luz |
Falar de Florianópolis
e não falar da Ponte Hercílio Luz é
até heresia. É o símbolo mais famoso da cidade e do Estado, sendo a imagem mais
reconhecida de ambos. Em uma pesquisa realizada pelo Instituto MAPA, ela
é mais citada do que a própria capital e que as praias do litoral catarinense.
Por esse simbolismo, a Ponte está presente – seja na sua forma ou no nome – em
comércios, logos e diversos usos em Florianópolis ou fora dela, e é
recorrente que obras como filmes, séries e novelas que estejam locadas ou façam
referência a Florianópolis mostrem a Ponte. A Ponte foi projetada e
começou a ser construída durante o governo de Hercílio Luz para ser a primeira
ligação terrestre entre a Ilha de Santa Catarina e o continente e
consolidar Florianópolis como capital de Santa Catarina. Àquela
altura, as outras cidades do Estado consideravam a ilha muito distante para ser
o centro administrativo e político do Estado e, em consequência, havia um
movimento pregando a mudança da capital para Lages. O acesso à ilha,
dependente de um sistema de balsas, era precário. Monopolizado, o serviço
sequer oferecia cobertura para proteger os passageiros do sol ou da chuva, e
era impraticável em dias com muito vento e mar agitado.
Ponte Hercílio Luz e os Canhões do Forte Santana do Estreito |
Se a proposta inicial tivesse dado certo, a Ponte Hercílio
Luz não seria da forma como a conhecemos. A ideia inicial era para a Ponte
ser de uma estrutura de vigas treliçadas, que foi descartada devido a
dificuldades de financiamento. Entrou então o projeto da ponte pênsil, de
autoria dos engenheiros norte-americanos Robinson & Steinman. A
estrutura seria instalada no Canal do Estreito, trecho que tem a menor
distância entre a Ilha e o continente. Mas bancar a construção não era o único
obstáculo para executar o projeto. A Ponte foi projetada para que fosse usada
também como ferrovia, com dois trilhos posicionados no centro, o que nunca se
concretizou. O Brasil sequer produzia ferro fundido e aço em volume suficiente,
o que fez com que o material da obra fosse importado por meio de navios. Todo o
material nela empregado foi trazido dos Estados Unidos, tendo sido
construída por uma equipe composta por 19 técnicos especializados
norte-americanos e catarinenses. A construção ficou a cargo da American
Bridge Company.
Ponte Hercílio Luz |
O Governo finalmente iniciou as obras em novembro de 1922,
mas o canteiro de obras do lado continental só ficou pronto em fevereiro de
1923, com itens vindos da Dinamarca. A outra frente de trabalho ficava
do lado insular. A fundação da Ponte foi concluída em julho de 1923. Aos
poucos, o projeto ia saindo do papel e a construção, tomando forma. Hercílio
Luz, o idealizador da obra, não viu seu sonho ser concluído, pois morreu em
1924, doze dias depois de inaugurar uma réplica de madeira, de 18 metros de
comprimento, construída na Praça XV de Novembro especialmente para o ato
simbólico. A Ponte, que era inicialmente chamada Ponte do Estreito,
seria chamada de Ponte da Independência por sugestão do então Governador,
mas, após sua morte, foi renomeada para Ponte Hercílio Luz como
homenagem póstuma.
Ponte Hercílio Luz |
A inauguração da Ponte Hercílio Luz, numa tarde
chuvosa de maio de 1926, acabou com o antigo sofrimento dos então 40 mil
habitantes da Ilha de Santa Catarina, que até então eram obrigados a
usar as desconfortáveis balsas para atravessar da Ilha ao continente ou
vice-versa. Florianópolis, que até a inauguração era uma pequena cidade
com ar provinciano, mudou seu destino com a nova ponte. Mais do que afastar o risco
de perder o status de capital, o surgimento da Hercílio Luz mudou os
costumes, os negócios e a forma de viver na cidade, e impulsionou o
rodoviarismo e o avanço urbano. Os carros se tornam protagonistas e os ônibus
se tornam, em cerca de 10 anos após a inauguração, o transporte coletivo mais
usado, substituindo primeiro os bondes e logo também as balsas. Entre 1926 e
1935 um pedágio, por pessoa, foi cobrado na cabeceira continental. Era cobrada
ainda, uma taxa adicional para quem estivesse carregando bagagens. O direito de
passagem era retribuído por uma taxa, por conta do ressarcimento dos
investimentos, segundo o Governo do Estado. Em 1944, Florianópolis
anexa parte do Município de São José, que se torna a parte continental
da capital catarinense. Desde então a Ponte deixa se ser uma ligação entre
cidades e passa a ser uma ligação interna de Florianópolis, entretanto,
o Governo Estadual permanece com a jurisdição da estrutura. Nas décadas
seguintes, o piso de madeira, barulhento, deu lugar ao asfalto, mais suave para
os carros, mas também mais pesado, e a Ponte não recebia manutenção devida. O
trânsito era cada vez maior, e congestionamentos começaram a se tornar comuns.
No fim de 1967, um alerta veio dos Estados Unidos.
Ponte Hercílio Luz |
A necessidade de se averiguar o estado de conservação da Ponte
Hercílio Luz tornou-se óbvia com uma tragédia no Hemisfério Norte: a
queda da Silver Bridge, uma ponte de desenho e concepção estrutural
similar sobre o Rio Ohio, entre Point Pleasant e Gallipolis,
nos Estados Unidos. Essa ponte tinha sido construída pela mesma empresa
que construiu a Hercílio Luz, a American Bridge Company. O
colapso da Silver Bridge, que desabou no horário de pico em dezembro de
1967, causou 46 mortes. Esse acidente levou a desconfiança sobre a estrutura da
ponte florianopolitana. Uma perícia realizada em dezembro de 1981 pelo Instituto
de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT) verificou que as barras de
olhal estavam deterioradas, o que comprometia a segurança de seus transeuntes.
A descoberta de uma trinca de cinco centímetros de abertura no olhal de uma das
barras localizada na altura do topo do pilar do lado sul da Ilha fez com que o Departamento
de Rodagem do Estado levasse a recomendação do Relatório do IPT a
cabo, interditando a Ponte ao tráfego pela primeira vez em janeiro de 1982. Na
época a ponte absorvia 43,8% do tráfego de veículos. A Ponte Colombo Salles,
aberta ao tráfego em março de 1975, passou a ser a única ligação da Ilha ao
continente. Posteriormente, em março de 1988, a Ponte foi reaberta ao tráfego
para pedestres, bicicletas, motocicletas e veículos de tração animal.
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Ponte Hercílio Luz |
Em fevereiro de 1990 foi concluída a primeira etapa da
análise de viabilidade da reabertura da Ponte ao tráfego, o que levou à segunda
interdição dela, em julho de 1991. A subsequente retirada do piso asfáltico do
vão central resultou em um alívio da ordem de 400 toneladas na carga suportada
pela Ponte. O pesadelo do desabamento tornou-se constante na vida das pessoas.
Este temor, entretanto, foi eliminado justamente no dia em que a Ponte
completou 71 anos de idade. A obra clássica da engenharia internacional foi
tombada como Patrimônio Histórico, Artístico e Arquitetônico do Município de
Florianópolis. Ainda em 1997, o Ministério da Cultura reconheceu
como Patrimônio Histórico, Artístico e Arquitetônico do Brasil, tendo
sido inscrita no Livro do Tombo Histórico do Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em agosto de 1998.
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Ponte Hercílio Luz |
Após anos fechada e apenas sendo mantida, uma parceria entre
o Governo Federal, Governo do Estado e Prefeitura de
Florianópolis em 2005 proporcionou o início das obras de restauração da Ponte
Hercílio Luz. Em 2008, o Consórcio Florianópolis Monumento passou a
ser o responsável pela manutenção e restauração. O prazo máximo para a entrega
da restauração era em maio de 2012, quando a Ponte completasse 86 anos, mas
impedimentos burocráticos, aliados à mudança no comando do Governo do Estado,
fizeram com que a obra atrasasse. O novo prazo de entrega ficou para metade de
2013, o que também não se efetivou, e o Consórcio foi afastado pelo Governo
do Estado. O tempo de obras, os gastos e as denúncias de corrupção fizeram
parte da opinião pública se voltar contra a Ponte, e muitos moradores de Santa
Catarina defendiam abertamente a derrubada do maior símbolo do Estado e
construção de uma nova ponte – o que não poderia acontecer já que é um
patrimônio histórico tombado.
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Ponte Hercílio Luz |
A Ponte tem 821 metros de comprimento total, sendo formada
pelos viadutos de acesso do continente com 222,5 metros, da Ilha com 259
metros, e pelo vão central pênsil que tem 339,4 metros de extensão. A estrutura
de aço tem o peso aproximado de 5.000 toneladas, e os alicerces e pilares
consumiram 14.250 metros cúbicos de concreto. Os pilares submersos receberam
cimento especial resistente à corrosão da água salgada. As duas torres
principais têm 74,21 metros de altura. O vão pênsil tem uma altura média de
30,86 metros em relação ao nível do mar e a carga total nas cadeias de barras
de olhal é de 4.000 toneladas-força. O mirante situado à cabeceira insular
proporciona uma das mais belas vistas panorâmicas do centro da cidade. Na área
também estão situados o Museu da Ponte
e o Parque da Luz.